de que não sei por que motivo Arya faz seja o
que for - Sansa detestava estábulos, lugares malcheirosos
cheios de estrume e de moscas. Mesmo quando ia montar,
gostava que o rapaz selasse o cavalo e o trouxesse até o pátio.
- Quer que lhe conte da audiência ou não?
- Quero - Jeyne assentiu.
- Estava lá um irmão negro - disse Sansa -, em busca de
homens para a Muralha, só que era mais ou menos velho e
mal-cheiroso - não gostara nada daquilo. Sempre imaginara
que a Patrulha da Noite era composta por homens como Tio
Benjen. Nas canções, eram chamados os cavaleiros negros da
Muralha. Mas aquele homem era corcunda e hediondo, e pelo
aspecto podia bem ter piolhos. Se a verdadeira Patrulha da
Noite era assim, sentia pena do meio-irmão bastardo, Jon. -
Meu pai perguntou se havia cavaleiros no salão que quisessem
honrar suas casas vestindo o negro, mas ninguém se
apresentou, e ele disse ao homem, Yoren, que fizesse sua
escolha nas masmorras do rei e o mandou embora. E mais
tarde houve dois irmãos que vieram perante ele, cavaleiros
livres vindos da Marca de Dorne, que colocaram suas espadas
a serviço do rei. Meu pai aceitou seus votos...
Jeyne bocejou.
- Haverá bolos de limão?
Sansa não gostava de ser interrompida, mas tinha de admitir
que bolos de limão soavam mais interessantes que a maior
parte do que se tinha passado na sala do trono.
- Vamos ver - ela respondeu.
A cozinha não tinha bolos de limão, mas encontraram metade
de uma torta fria de morangos, e isso era quase igualmente
bom. Comeram-na nos degraus da torre, entre risinhos, mexe-
ricos e segredos partilhados, e naquela noite Sansa foi para a
cama sentido-se quase tão malvada como Arya.
Na manhã seguinte, acordou antes da primeira luz e deslizou,
sonolenta, até a janela, a fim de observar Lorde Beric, que
punha os homens em formação. Partiram quando a aurora
raiava sobre a cidade, com três estandartes à cabeça da
coluna: o veado coroado do rei esvoaçava no poste maior; o
lobo gigante dos Stark e o estandarte do relâmpago bifurcado
de Lorde Beric, nos postes mais curtos. Tudo aquilo era
excitante, uma canção trazida à vida; o tinir das espadas, o
tremeluzir dos archotes, estandartes dançando ao vento,
cavalos resfolegando e relinchando, o brilho dourado da
alvorada trespassando através das barras da porta levadiça
quando foi puxada para cima. Os homens de Winterfell
tinham especialmente bom aspecto, com cotas de malha
prateadas e longos mantos cinzentos.
Alyn transportava o estandarte dos Stark. Quando o viu
puxar as rédeas ao lado de Lorde Beric para trocar algumas
palavras com ele, Sansa sentiu um grande orgulho. Alyn era
mais bonito do que Jory fora; e um dia seria um cavaleiro.
A Torre da Mão parecia tão vazia depois de os homens terem
partido que Sansa até ficou contente por ver Arya quando
desceu para o desjejum.
- Onde estão todos? - quis saber sua irmã enquanto arrancava
a casca de uma laranja sanguínea. - Nosso pai os mandou em
perseguição de Jaime Lannister?
Sansa suspirou,
- Partiram com Lorde Beric para decapitar Sor Gregor
Clegane - virou-se para Septã Mordane, que estava comendo
mingau de aveia com uma colher de pau. - Septã, Lorde Beric
vai espetar a cabeça de Sor Gregor no portão dele ou vai
trazê-la para cá e dá-la ao rei? - ela e Jeyne Poole tinham
discutido sobre aquilo na noite anterior.
A septã ficou horrorizada.
- Uma senhora não discute essas coisas à mesa. Onde está sua
educação, Sansa? Juro, nos últimos tempos tem sido quase
tão má como a sua irmã.
- Que fez Gregor? - Arya perguntou.
- Queimou um castelo e assassinou uma porção de pessoas,
mulheres e crianças também. Arya fechou o rosto numa
carranca.
- Jaime Lannister assassinou Jory, Heward e Wyl, e Cão de
Caça assassinou o Mycah. Alguém devia tê- los decapitado.
- Não é a mesma coisa - disse Sansa, - Cão de Caça é por
juramento o escudo de Joffrey. Seu amigo, filho de carniceiro,
atacou o príncipe.
- Mentirosa - disse Arya. Agarrou a laranja sanguínea com
tanta força que sumo vermelho escorreu entre seus dedos.
- Vá em frente, chame-me os nomes que quiser - disse Sansa
em tom alegre. - Quando eu estiver casada com Joffrey, não
se atreverá. Terá de me fazer reverências e me chamar Vossa
Graça - soltou um gemido estridente quando Arya lhe
arremessou a laranja. O fruto a atingiu no meio da testa com
um salpico molhado e tombou no seu colo.
- Tem sumo na cara, Vossa Graça - Arya disse.
O sumo escorria pelo rosto e fazia arder os olhos. Sansa se
limpou com um guardanapo. Quando viu o que o fruto tinha
feito em seu belo vestido de seda cor de marfim, soltou outro
gemido.
- Você é horr ível - gritou para a irmã. - Deviam ter matado
você em vez da Lady!
Septá Mordane pôs-se subitamente em pé.
- O senhor seu pai ouvirá falar disto! Vão imediatamente para
os seus aposentos. Imediatamente!
- Eu também? - lágrimas jorraram dos olhos de Sansa. - Não é
justo.
- Não haverá discussão. Vá!
Sansa foi embora a passos largos, de cabeça levantada. Seria
uma rainha, e as rainhas não choram. Pelo menos 